A gestão de riscos e seguros como prevenção a tragédias

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Por Jornal O Globo   |   6 de Maio de 2016

Ao nos deparamos com a lógica dos fatos que desencadearam acidentes como o da Ciclovia Tim Maia, no Rio de Janeiro, não é razoável apontar apenas o número de vítimas. Precisamos elencar os motivos que contribuíram para que estas estruturas se precipitassem em direção a tragédias. Os danos vão além das perdas materiais e do desgaste de imagem das empresas e de seus contratantes. Estes acidentes interromperam sonhos e vidas, que jamais serão recuperados.

Ao lado da forte imagem dos corpos das vítimas, os sentimentos de perda vêm à tona, de imediato, com suas subjetividades. A compaixão pela dor dos familiares (dano moral), a indignação diante da possibilidade de se ter evitado o desastre (risco de engenharia e de projeto), a revolta pela impotência em não poder ajudar as vítimas (ação de resgate) e, por fim, a saudade da impossibilidade de viver momentos felizes que deixarão de ser compartilhados (perdas de renda e patrimonial).

Passamos por estes sentimentos sem nos dar conta de como somos resignados. Como recuperar vidas humanas? Elas têm valor? Os seguros certamente não foram criados para restaurar sentimentos, compensar dores ou aliviar revoltas, mas para dar continuidade à vida com qualidade e dignidade. Este é o valor social dos seguros na gestão dos riscos: ser instrumento de compensação de danos materiais a partir da percepção do valor das coisas. Outra faceta é ajudar na prevenção. O seguro acaba funcionando como um agente externo, que contribui para a identificação de possíveis riscos estruturais, possibilitando ações preventivas.

O Rio traz uma simbologia particular que desafia a lógica. O Cristo Redentor destaca-se como símbolo religioso responsável por guardar cidadãos e visitantes. A realidade, porém, nos coloca de joelhos e nos faz meditar sobre a fé diante da violência contra a sociedade.

A lógica, ao contrário, prevê a análise com base em princípios científicos, a partir da coleta de dados e do desenvolvimento de hipóteses dos fenômenos estudados. Assim, a gestão de riscos e seguros, se aplicada à Ciclovia Tim Maia, seguiria etapas definidas.

Antes da licitação da obra, dever-se-ia avaliar o Projeto Básico, onde constariam as normas de fiscalização. Ali se definiriam a tolerância aos riscos e quais coberturas securitárias seriam aplicadas. Na execução, as obras seriam acompanhadas e fiscalizadas pelo contratante. Neste momento, os seguros de responsabilidades civis e de engenharia tomam importância frente aos riscos próprios da execução do projeto. E, por fim, após a conclusão das obras, as responsabilidades seriam gradualmente transferidas pelo responsável por seu acompanhamento ao contratante, sendo recepcionada mediante termo circunstanciado.

Geralmente, a polêmica se dá após os desastres, quando se faz uma perícia técnica contratual e de engenharia, para avaliar a extinção de responsabilidade por eventuais erros de projeto, construção ou operação. Assim, mesmo em eventos catastróficos, como o ocorrido em Mariana (MG), o risco está em tecer comentários sem conhecimento dos documentos que sustentam os contratos e definem o Projeto Básico, assim como os termos de recebimento das obras.

Em tempos de discursos sobre “deixar legados” ou ser um profissional “diferenciado”, como os atletas olímpicos, a especialização em gestão de riscos e seguros é primordial para técnicos em áreas como engenharia, administração ou direito. Este profissional estaria preparado a ajudar pessoas, empresas e organizações a tomarem as decisões mais acertadas, evitando tragédias como as ocorridas em nosso País.

Artigo de autoria de Sérgio Hoeflich, mestre em Engenharia Oceânica pela Coppe/UFRJ e coordenador do MBA em Gestão de Riscos e Seguros na Escola Nacional de Seguros.

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